Argilas orgânicas costumam estar entre os solos mais desafiadores para escavações e contenções, especialmente quando são classificadas como “moles” ou “muito moles”.

Para o profissional de engenharia, um dos primeiros sinais de atenção aparece no boletim de sondagens.

Quando a argila orgânica apresenta SPT inferior a 2 golpes, é necessário analisar cuidadosamente as condições encontradas. Em muitos casos, podem existir trechos com apenas 1 golpe para mais de 30 cm de avanço ou situações em que o avanço ocorre somente com o peso próprio do martelo, caracterizando os chamados “zero golpes”.

A baixa capacidade de suporte e a alta plasticidade desses solos podem tornar o trabalho de escavação e contenção especialmente desafiador.

Neste conteúdo, vamos apresentar alguns dos principais pontos a observar antes de definir uma solução de escoramento.

Exemplo de Boletim de Sondagem em Argila orgânica muito mole, com SPT inferior a 1

Argila orgânica adensada ou não adensada?

O estado de adensamento das argilas orgânicas faz muita diferença no seu comportamento.

Quando adensadas, costumam apresentar um comportamento geralmente mais estável, mesmo mantendo características de alta plasticidade.

Além disso, uma argila orgânica adensada pode apresentar um alto stand up time, mantendo-se no mesmo estado depois do corte.

Na prática, isso pode permitir a utilização de blindagens de valas ou estacas-prancha com pouca ficha, dependendo das condições encontradas no terreno.

Já as argilas orgânicas não adensadas muito moles costumam apresentar um comportamento bastante diferente.

O solo tende a se movimentar rapidamente, possui baixo stand up time e apresenta capacidade de suporte muito baixa.

É o que popularmente pode ser chamado de comportamento de “brejo”, tornando o trabalho de contenção extremamente desafiador.

Nessas condições, não se recomenda o uso de blindagens, enquanto a utilização de estacas-prancha geralmente está associada a fichas longas e a medidas adicionais de estabilização ou consolidação.


Como saber se a argila está adensada?

Essa é uma das perguntas mais importantes antes de definir o escoramento.

A confirmação deve ser feita por meio de ensaios e avaliação geotécnica, mas o histórico do local pode fornecer uma indicação preliminar.

Quando os boletins de sondagem indicam uma camada de aterro com espessura superior a 2 metros acima da camada de argila orgânica, em áreas urbanas, pode ser útil buscar informações sobre quando ocorreu a urbanização daquela região.

Em grandes cidades, quando esses aterros foram realizados há mais de 10 anos para implantação de loteamentos ou projetos viários próximos a fundos de vales, o processo de adensamento pode já ter ocorrido naturalmente em função da sobrecarga do aterro.

Essa análise pode ajudar na avaliação preliminar, mas não substitui ensaios geológicos/geotécnicos nem a validação de um profissional habilitado e consultor de solos.


Salinidade: atenção especial às argilas orgânicas marinhas

Um dos pontos que merece destaque especial é a classificação do solo como “argila orgânica marinha”.

Seu comportamento tende a ser diferente daquele observado em argilas orgânicas não marinhas.

Mesmo quando o solo está adensado, escavações em argilas orgânicas marinhas demandam atenção especial, pois a salinidade pode alterar o comportamento do solo quando desconfinado.

Essa alteração está relacionada à ação físico-química do sódio e pode fazer com que o solo apresente maior tendência à movimentação.

Por isso, quando a investigação aponta uma argila orgânica marinha, a condição de salinidade deve fazer parte da análise antes da definição do sistema de escoramento.


Onde é mais comum encontrar argilas orgânicas moles e muito moles?

As argilas orgânicas são formadas a partir da decomposição de matéria orgânica ao longo do tempo.

Sua ocorrência está normalmente associada a regiões de depósitos aluvionares, onde materiais transportados pela água foram se depositando ao longo de milhares de anos.

Alguns locais onde podem ser encontradas incluem:

FUNDOS DE VALE

Rios, córregos e lagos naturais.

ESTUÁRIOS

Foz de rios, regiões de mangue ou manguezais.

REGIÕES LITORÂNEAS

É comum encontrar depósitos de argila orgânica abaixo de camadas espessas de areia que não são visíveis na superfície.


Guia prático de soluções para argilas orgânicas

O estado de adensamento é um dos fatores que influenciam a escolha do sistema.

ARGILA ORGÂNICA ADENSADA FLUVIAL

Dependendo das condições do terreno, podem ser consideradas:

Blindagens de valas ou estacas-prancha metálicas.

ARGILA ORGÂNICA ADENSADA MARINHA

Dependendo das condições do terreno, podem ser consideradas:

Blindagens de valas ou estacas-prancha metálicas.

Porém, no caso das argilas orgânicas marinhas, a influência da salinidade deve receber atenção especial.


ARGILA ORGÂNICA NÃO ADENSADA FLUVIAL

Em condições de menor resistência, estacas-prancha metálicas com ficha longa são uma das soluções a avaliar.

O comprimento da ficha deve ser definido por dimensionamento geotécnico, considerando as características do solo, os esforços atuantes, a presença de água e o risco de ruptura de fundo.


ARGILA ORGÂNICA NÃO ADENSADA MARINHA

Em condições de menor resistência, estacas-prancha metálicas com ficha longa também são uma das soluções a avaliar.

Nesse caso, além das características de resistência e adensamento, a condição de salinidade e o comportamento do solo quando desconfinado merecem atenção especial.

O comprimento da ficha deve ser definido por dimensionamento geotécnico, considerando as características do solo, os esforços atuantes, a presença de água e o risco de ruptura de fundo.


Nunca trabalhe em argilas orgânicas sem um projeto de escoramento

Argilas orgânicas, especialmente as classificadas como moles ou muito moles, podem apresentar condições bastante complexas para escavações e contenções.

Por isso, as atividades de engenharia devem ser realizadas sob responsabilidade técnica de profissional habilitado pelo CREA.

No caso das argilas orgânicas, essa recomendação merece atenção especial em função da complexidade e da instabilidade desses solos.

Este conteúdo tem caráter informativo e pode auxiliar em uma análise preliminar, cotação ou comparação de soluções.

A efetiva aplicação da solução deve ser realizada somente sob responsabilidade técnica de um engenheiro projetista e/ou consultor de solos.


CONCLUSÃO

Trabalhar com argilas orgânicas exige mais do que observar apenas a profundidade da escavação.

É necessário entender:

• O resultado da sondagem; • A resistência do solo; • O estado de adensamento; • O histórico do local; • A presença de água; • A classificação como argila orgânica marinha, quando aplicável; • A influência da salinidade; • As condições específicas da escavação.

A partir dessas informações, é possível avaliar qual sistema é compatível com as condições encontradas.

Cada tipo de argila orgânica apresenta um comportamento diferente.

E, quanto mais complexas forem as condições do terreno, mais importante se torna contar com avaliação e projeto geotécnico adequados.

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